terça-feira, 17 de março de 2009

Entrevista a Mário Teles

No dia 19 de Fevereiro, O Sr. Mário Teles, ex-atleta olímpico de remo, teve a amabilidade de nos receber em sua casa para nos responder a algumas perguntas no âmbito do nosso projecto.



Primeiramente, o Sr. Mário Teles mostrou-nos o seu “arquivo” da sua carreira desportiva: fotos, medalhas, taças e outros prémios, enquanto nos explicava o seu significado.
De seguida, procedemos então à entrevista. Em primeiro, o seu nome e idade: Mário Monteiro Teles Santos Júnior, de 88 anos. Perguntámos que modalidades desportivas praticara, ao que ele respondeu que dedicou entre 25 e 30 anos ao basquetebol e ao remo, ambos no clube dos Galitos. À pergunta “praticou desporto porque quis ou devido a pressão familiar ou de qualquer outro tipo”, Mário Teles respondeu veemente que havia sido de sua própria vontade.
Perguntámos em que competições havia entrado, ao que respondeu que, no remo, participou em campeonatos nacionais e europeus, na chamada “Taça de Salazar”, em Lisboa, e representou Portugal nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia, Finlândia. No basquetebol, jogou pelo clube dos Galitos, tendo chegado a ingressar na Selecção de Aveiro desta modalidade. Começou a praticar aos 17-18 anos e cessou aos 36-37 anos.
Em relação aos incentivos/ ajudas por parte das entidades, Mário Teles respondeu sem hesitar que eram péssimos. Praticamente inexistentes. Não os havia da parte do clube, nem da Câmara, nem do Estado/governo, mesmo aquando da sua integração na comitiva olímpica portuguesa. Mário afirma mesmo que, na área do remo, possuíam apenas dois barcos, os quais tinham que reparar constantemente. Na área do basquetebol, os atletas traziam o seu próprio equipamento e levavam-no depois para casa para lavar.
No que diz respeito à nutrição e aos cuidados com a alimentação, segundo Mário Teles, não os havia. A comitiva olímpica portuguesa comia de tudo, mas sobretudo, bacalhau com batatas, apenas porque era o que tinham em mais quantidade e o que mais apreciavam. Acrescenta ainda, em tom de gozo, mas em verdade, que levaram inclusivamente um pipo de vinho. Hoje, Mário leva uma alimentação à base de peixe (bacalhau em maioria) e muito pão. Não come carne de vaca, e come alguma carne de porco mas tira as gorduras.
Importante também referir, para termos noção do clima de tensão que se vivia em Portugal durante o Estado Novo e o governo de Salazar, e em como esta tensão social e política interfere e influencia o desporto, que o único “incentivo” que a comitiva olímpica portuguesa viu do seu país, foi a presença constante de cinco agentes da PIDE (informadores) que os acompanharam durante toda a viagem. E, à sua chegada a Lisboa após os Jogos, todos tiveram que lançar ao mar as revistas estrangeiras que traziam consigo, pois não passavam na alfândega.

Os grandes dinamizadores do remo em Aveiro erma Mário Teles, Ulisses Naia e Amadeu. Capelo era o orientador da equipa olímpica e era acompanhado por Armando Saraiva da Federação Portuguesa.
Na ida para a Finlândia, passaram ainda um dia na Suíça e outro na Suécia, onde se instalou alguma confusão após um agente da PIDE ter tentado furtar um homem, uma vergonha para a nossa nação (!).

Podemos concluir, no âmbito do projecto “Desporto em Aveiro”, que o mesmo era, de facto, encarado de forma diferente no passado: não havia cuidado com a nutrição ou alimentação, e os incentivos e ajudas por parte de entidades (clubes, Estado, governo, câmara, patrocínios, etc.) eram precários. No entanto, apesar do desporto se encontrar neste estado, pensamos que havia mais amor ao desporto que, mais simplista e despido de pressões e formalidades, era praticado por aqueles que realmente gostavam e tinham prazer no que faziam. Hoje, o desporto é levado talvez um pouco demasiado a sério, e muitas vezes as pessoas praticam-no não por vontade própria, mas por outro tipo de pressões (sociais, familiares, etc.), e muitas vezes o empenho é levado ao extremo, pondo mesmo em causa a própria saúde, em vez de servir o propósito de a beneficiar.

Seguem-se algumas das fotos que tirámos:

Homenagem do Clube dos Galitos – 150 anos de Remo



Comitiva olímpica portuguesa - Jogos Olímpicos de Helsínquia , Finlândia, 1952



Navio a vapor Serpa Pinto, que transportou a comitiva olímpica portuguesa para os Olímpicos de 1952, no Canal de Kiel, em passagem para Helsínquia.

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