segunda-feira, 23 de março de 2009

O que muda em 10 anos

Serão apenas os elementos físicos do desporto que mudam com o tempo?




Tudo muda com o tempo, e o desporto não é excepção. Segue-se uma reflexão de um culturista Português, que quis manter o anonimato, que contactámos e questionámos sobre a evolução do desporto ao longo dos seus anos de treino. A resposta foi o seguinte texto, que é referente apenas à sua modalidade, mas que demonstra o que se passa um pouco por todos os desportos: a excessiva preocupação com os lucros e a resultante perda do amor genuíno e incondicional pela prática desportiva. É com pesar que chegamos a esta conclusão mas é a realidade, especialmente em modalidades que não estão nas “luzes da ribalta” como o Culturismo. Por exemplo, recentemente, um Culturista português, Carlos Rebolo, sagrou-se Campeão Mundial na classe superior a 40 anos, mas nenhum modo de comunicação social relatou o facto, pura e simplesmente porque esta modalidade “não vende”. O nosso grupo, no entanto, não menospreza uma modalidade por esta não ser a mais praticada do país, até porque um dos nossos objectivos é divulgar as diferentes modalidades desportivas existentes.


“1999 - Chego ao ginásio depois das aulas, hoje é segunda-feira, sai as 16:00 das aulas, estive em casa a descansar um pouco, preparei a mochila e vim para o ginásio. Normalmente a segunda-feira gosto de treinar um grupo muscular grande, costas ou pernas, sinto-me mais fresco e recuperado no inicio da semana. Opto por costas, terça é dia de aula de Ed. Física de manha e se tiver de correr vou estar fraco das pernas. Chego ao ginásio e o dono do mesmo está sentado nos cadeirões junto a recepção, o dono do ginásio é o Patrick. Em cima do balcão estão potes de vidro onde se vendem aminoácidos em saquetas, e packs de vitaminas pré-treino, na parte de trás do balcão está uns potes de proteína e outros suplementos em exposição. Em cima do balcão está também a ultima edição da Muscle And Fitness, com fotos recentes do Flex Wheeler numa forma nunca antes vista, eu e mais outros 2 ou 3 sócios olhamos com admiração e espanto a revista e dizemos em conformidade que este é o ano do Flex, que está imparável, incrível mesmo, que o Coleman não o consegue ganhar e que talvez o recém-chegado Markus Ruhl fique entre os 10 primeiros lugares, o tipo é enorme mesmo. Na revista vem a publicidade da Muscletech, fala-se no Hidroxycut, no Acetabolan e no Cell-Tech... 5 Quilos em 5 dias dizem eles... o pessoal torce o nariz mas sente uma pontinha de esperança de poder experimentar o suplemento. Passados estes 15 minutos de conversa e boa disposição vou para os balneários, cacifos ferrugentos, pouco espaço e agua pelo chão. Depois de me vestir vou treinar.Estão 2 tipos a usar a barra olímpica a fazer peso morto, também quero fazer, mas ainda nem aqueci e meter-me logo na carga que eles estão a usar era meio caminho para ter uma lesão nas costas.Os tipos são porreiros, gajos mais velhos que eu mas porreiros, um taxista de apelido Café e o outro um porteiro, o Dimas.Digo em tom motivador enquanto passo para a passadeira para ir fazendo um aquecimento "força nisso pessoal, vamos embora, carga nisso".O Café diz "isto está salgado, está está... mas ainda dá para salgar mais" e mete mais 15 quilos de cada lado na barra olímpica, já devem estar nas ultimas séries penso eu, estão a fazer 6 a 8 repetições provavelmente não lhes falta muito, e mal acabem vou eu para a barra.Entra uma mulher, cumprimenta toda a gente e sorri para todos sem excepção, não me lembro do nome dela, mas é cliente habitual e não tem medo de treinar nem suar, usa máquinas e pesos sem descrição, não usa grandes cargas mas treina a um bom ritmo e até tem um corpo mais ou menos em forma.Passo para a barra olímpica para fazer peso morto e começo a aquecer só com a barra, sem pesos, nisto chega o meu colega de turma, amigo e companheiro de treino da altura, o Rui, digo-lhe em tom descontente " despacha-te pá estás atrasado, já eu aqueci e vou começar a treinar, hoje vamos fazer costas, vá despacha-te".Ele aquece rápido na passadeira e vem para a barra começamos a treinar, ele começa-me a falar de coisas da escola, da turma, dos testes, eu nem ligo ao que ele diz, entra por um ouvido e sai por outro, só penso em aumentar a carga na última série ou fazer mais umas repetições. Ele continua a falar, e eu digo-lhe "treina mais e conversa menos pá, sempre a mesma coisa".Continuamos o treino e reparo que no canto do ginásio a falar muito baixinho estão 2 tipos também clientes habituais, falam de anabolizantes baixinho, um pergunta e o outro responde preços e doses, etc. Sai uma mulher dos balneários e mudam de assunto quando ela passa ao pé deles.Continuo a treinar com o meu companheiro de treino, série após série, repetição após repetição, acabamos o treino e ainda vamos fazer abdominais, a sala onde normalmente dão aulas de grupo está cheia, mulheres e homens nas passadeiras, nas máquinas de remo, a fazer abdominais no chão, etc.Já passava das 18:00, era completa hora de ponta no ginásio, tudo cheio.Vou para os balneários, tomo banho, no balcão bebo um batido de proteína digamos de qualidade duvidosa, só penso em ir para casa, estou dorido, cansado, e com forme, o peito de frango e o arroz estão à minha espera.As pessoas respeitam-se todos ou quase todos se conhecem, e sabem que gostam de treinar e frequentar o ginásio, uns treinam de uma forma mais dura, outros de forma mais leve, mas nota-se que as pessoas gostam do que fazem, alguns, sócios até tem conhecimentos e falam e debatem os seus atletas favoritos e das competições em que participam, de quem será o próximo Mr. Olympia, da forma do Flex, ou do último suplemento que compraram a preço de ouro, ainda em escudos.2009 - Outra segunda-feira, 10 anos depois, o ginásio actual é do meu amigo e conhecido de longa data Ângelo, mas podia ser qualquer ginásio espalhado pelos pais, pois o que vou descrever a seguir é o actual cenário dos ginásios.No balcão estão algumas revistas de culturismo, também está a Caras ou a Maria ou lá o que é onde a capa é a Lili ou coisa parecida.São mais as revistas cor-de-rosa do que as de culturismo as que estão espalhadas pelas mesas junto ao balcão.Entram 2 miúdos de 17/18 anos no ginásio, por entre as expressões "mambo, sócio, cena" e outras mal consigo perceber o que dizem.Vou mudar de roupa e começo a treinar, pernas, quase ninguém treina pernas, pelo menos na jaula de agachamento, maior parte dos tipos da mesma sala de máquinas treina peito, aliás treina peito não sei quantos dias por semana, peito e bíceps, a claro está no fim do treino, vai-se fazer uns abdominais para ter a esperança de um dia os conseguir ver.Falam da noite, falam do fim-de-semana, de como estava este ou aquele bar.Aumento o volume do mp3, já falta paciência para as conversas da noite à hora do treino.Paro entre as séries, começam-me a doer as pernas, sento-me e olho para o lado, 2 miúdos estão a comparar bíceps frente ao espelho, tiro os auriculares e pego na garrafa de água, pelo meio ouço mais uma barbaridade " pá eu não quero ficar muito grande men, tás a ver assim só tipo seco, méne fixe tás a ver".Falam do autêntico arsenal de suplementos que estão a usar, tudo suplementos hiper-mega-super que prometem muito e fazem pouco, nem os vejo discutir dieta ou treino.Volto a por os auriculares e volto para debaixo da barra, para mais uma série de agachamento.Terminada a série olho para trás, vejo a sala de cardio acima, algumas pessoas nas passadeiras olham com desconfiança para dentro da sala de máquinas, ou é para mim ou para os 3 tipos que estão aos berros num autentico concurso de gritos e grunhidos atrás de mim num banco de supino.As poucas mulheres do ginásio quase nem entram nas salas de peso ou de máquinas, parece que tem medo ou fobia, ou como elas dizem "não querem ficar muito grandes".Acabo as séries na jaula de agachamento e passo a máquina de extensão de quadriceps.Ao lado estão 2 ou 3 tipos a falar de anabolizantes como quem fala de ir a pastelaria comer um bolo ou como quem fala do tempo.Do outro lado passa uma mulher, com uma cara de mal disposta ou zangada com a vida, não fala, não sorri, uma mistura de Manuela Ferreira Leite com Ministra da Educação.Não me parece que ela esteja com muita vontade de estar ali.Continuo a treinar e quando acabo vou beber um batido que tinha no saco, o balcão está concorrido, mal consigo chegar ao meu saco que ficou atrás do balcão, falo com o Ângelo acerca da última competição a que fomos juntos, comentamos a forma de alguns atletas nacionais e a sua prestação, quem está ao balcão olha para nós e faz uma expressão de admiração, parece que estamos a falar chinês ou estamos a debater física nuclear ou física inter-planetária.Pego no saco e vou para os balneários, enquanto tomo banho entra um tipo, que parece que está mal disposto do cabelo, ou então levou um choque, faz-me lembrar um jogador de futebol do Sporting que vi na televisão há pouco tempo.O tipo veste-se e penteia-se cuidadosamente antes - e volto a frisar, antes - de treinar.Dá-me vontade de rir mas contenho-me, acho que um comportamento digamos estranho daqueles merece o silêncio.Volto ao balcão do ginásio e tiro um tupperware do saco de treino com peito de frango e arroz, devoro aquilo em minutos enquanto algumas pessoas ficam incrédulas a olhar para mim. Será que nunca viram um tipo comer depois do treino?Termino este texto a pensar no que é que mudou em 10 anos, pouco terá sido para melhor, perdeu-se espírito de sacrifício, respeito e acima de tudo determinação no desporto.O ginásio é visto hoje em dia como um local de convívio social, onde pouco se treina, e muito se fala.”

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